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quarta-feira, 18 de julho de 2012

Atopia Canina e Felina






A dermatite atópica (dermatite alérgica, dermatite inalante ou atopia) é uma predisposição genética para desenvolver sintomas alérgicos após exposição repetida a alguma substância (como pó, ácaros do pó, grama, pólen) que nos animais não atópicos deixam de criar a doença.

CÃES 

Os cães geneticamente predispostos absorvem por via percutânea, inalam e possivelmente ingerem diversos alérgenos que irão causar reação. A maioria  dos cães (cerca de 70%) começa a mostrar seus sinais clínicos de atopia entre 1 e 3 anos de idade, mas a idade de início dos sinais pode variar de 4 meses a 7 anos, porém poucos cães iniciam  sintomas clínicos  após 7 anos.
Por causa da natureza hereditária  da doença, várias raças são mais comumente atópicas: Shar Pei, West Highland White Terrier, Scotish Terrier, Lhasa Apso, Shih Tzu, Dálmata, Pug, Setter Irlandes e Inglês, Boston Terrier, Golden Retriever, Boxer, Labrador, Schnauzer Miniatura.

Os cães atópicos  geralmente esfregam, lambem, mordem ou coçam patas, focinho, orelhas, axila ou virilha, causando perda de pelos, vermelhidão e espessamento da pele. O envolvimento cutâneo generalizado pode estar presente em 40% dos cães, otite externa e conjuntivite atópica podem estar presentes em cerca de 50% dos cães. A maioria dos cães atópicos apresenta descamação média na maior parte das áreas com coceira e apresentam pelagem frequentemente ressecada. Os sinais clínicos podem inicialmente ser sazonais ou não, dependendo do alérgeno envolvido, mas cerca de 80% dos cães atópicos eventualmente apresentam sinais clínicos não-sazonais.

Em alguns casos, várias substâncias agressoras podem “juntar-se” para causar  coceira ao animal sendo cada substância individualmente não seria suficiente para causar sensação de coceira. Essas substâncias incluem não apenas alérgenos transportados pelo ar  (p. ex.: pólen), mas também alérgenos no alimento e alérgenos de parasitas (p.ex.: pulgas). Além de  coceira causada por infecções secundárias bacterianas (piodermites e foliculites) ou levedurioformes (malassezia) da pele. As vezes, a eliminação de alguns dos problemas, mas não de todos, pode não levar ao desaparecimento da coceira do cão ou do gato. Por essa razão, é importante tratar quaisquer outros problemas que possam estar causando coceira no animal enquanto se trata a alergia.

O diagnóstico de dermatite atópica nos cães baseia-se na história, sinais clínicos (áreas de coceira), exclusão de diversas outras causas de prurido (hipersensibilidade alimentar, alergia a picada de pulga, sarna sarcóptica, dermatite de contato entre outras) e na sazonalidade inicial do problema cutâneo (embora, muitos cães logo começam a se coçar e esfregar durante o ano todo). O veterinário poderá levar meses para concluir um diagnóstico de atopia.







GATOS

Nos gatos, é considerada a segunda hipersensibilidade mais comum, e uma predisposição hereditária não foi comprovada, mas existem relatos de casos com envolvimento familiar. Não existe predileção racial ou por sexo, sendo os gatos jovens mais predispostos, entre 6 meses e 2 anos de idade.

Apesar de 100% dos gatos atópicos demonstrarem coceira, nem sempre ela é percebida pelo proprietário, pois muitos gatos manifestam coceira através da lambedura intensa dos pelos e pele, e pode ser confundido com excesso de cuidado com a pelagem. Porém  gatos que estão se lambendo em excesso podem demonstrar frequente vômito de bolas de pelos, pelos nas fezes, tufos de pelos em áreas onde o  gato costuma ficar, arrancamento de pelos com a boca.
Os sinais clínicos de atopia no gato, podem se manifestar de diversas formas:
  • alopecia (falhas de pelo) auto-induzidas;
  • lesões do complexo eosinofílico felino: placa eosinofílica, úlcera indolente ou  granuloma eosinofílico;
  • dermatite miliar;
  • coceira localizada - sem lesões aparentes – podendo acometer face, pescoço, orelhas, abdomen, virilha, tórax lateral e parte caudais das coxas;
  • coceira generalizada
Alguns gatos podem manifestar combinações destes padrões de lesão. Otite externa pruriginosa (com coceira) ou ceruminosa podem acometer alguns gatos atópicos e sinais não-cutâneos também podem estar presentes como espirros e conjuntivite.
Devido a grande variedade de sinais clínicos que o gato atópico pode manifestar, o diagnóstico diferencial a ser pesquisado é enorme, entre eles DAPE, hipersensibilidade alimentar, sarnas, dermatofitose e alopecia psicogênica.

O diagnóstico de atopia felina baseia-se na história sugestiva, sinais clínicos e exclusão das outras causas de prurido citadas acima (que pode levar meses). Para aqueles casos onde o proprietário não tem certeza se o animal está se coçando realmente ou apenas cuidando da pelagem, ou se a alopecia não é devido a coceira, o exame de tricograma ajuda bastante. Neste exame é avaliado microscopicamente as extremidades dos pêlos, no qual pêlos partidos e quebrados indicam lambedura, arranhadura ou mastigação, sendo sugestivos de problema que cause coceira, como a atopia.




TESTES ALÉRGICOS


Existem dois tipos de testes alérgicos que podem ser feitos nos animais atópicos:

- teste intradérmico: 

diversas substâncias são injetadas na pele do animal e a reação que cada uma delas provoca é comparada com uma substância controle. Dependendo do tipo e da intestidade da reação local, será considerado positivo ou negativo (alérgico ou não) aquela substância. As substâncias comumente utilizadas são ácaros de poeira doméstica, resíduos de pele humana, pena, bolores,sementes, gramas e árvores. Uma reação positiva, não significa  necessariamente que o animal  tenha alergia clínica as substâncias injetadas, assim como uma reação negativa não exclui o diagnóstico de atopia.

- sorológico: 

detecta níveis de IgE (imunoglobulina E, célula de defesa envolvida na atopia) alérgeno-específica no soro do animal.  Há estudos que dizem que não somente a IgE esteja envolvida na atopia e o resultado do teste pode não se correlacionar com a doença clínica.
Devido a baixa especificidade dos testes alérgicos  eles não devem ser utilizados para fechar um diagnóstico de atopia. Mas podem ser uteis para determinar quais alérgenos incluir na produção de uma vacina (imunoterapia).






TRATAMENTO PARA CÃES E GATOS 


O tratamento geralmente é necessário para toda a vida e modificações terapêuticas ao longo da vida são esperadas. O tratamento pode incluir: evitar a substância, terapia para controlar a coceira (terapia sintomática) ou terapia específica (vacina de dessensibilização) na tentativa de dessensibilizar o animal para as substâncias específicas as quais descobriu-se que ele é alérgico. A eliminação completa da substância alérgica pode não ser prática, mas diminuir a exposição pode ser plausível.

Se seu animal é alérgico a pólen, diminuir a exposição ao ambiente externo, na época de primavera e especialmente ao anoitecer e na alvorada, é útil, além de nunca deixá-lo andar por campos com grama alta ou ervas e não ficar fora quando o gramado for cortado. Se seu animal possuir uma alergia a fungos ou mofo, ele não deve ser mantido em cômodos com níveis altos de umidade (banheiros ou lavanderia) nem ser deixado em áreas com muito pó.
Muitos atópicos também são alérgicos a picada de pulga (DAPP) e a certos alimentos, e portanto precisam de tratamento mais detalhado. 

O controle do pó ou dos ácaros na casa pode ser uma tarefa principal e consiste em remover carpetes, cobrir colchões, lavar regularmente a cama, usar um aspirador de grande eficácia, evitar brinquedos recheados e o abafamento constante das áreas mais frequentadas pelo cão ou gato.
Na maioria dos casos, uma única droga não confere  resultados mais seguros e eficientes, e o veterinário poderá abordar o tratamento do cão atópico com um plano completo de tratamento.

Anti-histamínicos e ácidos graxos, quando administrados em combinação, podem diminuir a sensação de coceira em cerca de 10 a 20% dos animais atópicos. Os cães e gatos podem tomar anti-histamínicos e ácidos graxos por toda a vida sem problemas a longo prazo. O único efeito colateral que em geral é observado com os anti-histamínicos é a sonolência,  e pode ser necessário testar vários  tipos diferentes de anti-histamínicos até que se encontre um que funcione melhor.

Os produtos aplicados a pele (xampús, creme rinse, condicionadores, gel, loções, sprays) com propriedades antipruriginosas (aliviam a coceira) também podem ser benéficos. Esses produtos em geral precisam ser aplicados diariamente (spray, gel, loção) ou semanalmente (xampú, creme rinse e condicionador).  Os xampus e enxagues ajudam a remover alérgenos da pele e evitam seu ressecamento, mas para isso deve ser usada uma fórmula hidratante.
É preciso lembrar que a pele dos cães atópicos é sensível e facilmente irritada, por isso é importante que o animal seja banhado em água fria, pois a água morna ou quente aumenta a sensação de coceira. Para os gatos o tratamento através de banhos frequentes pode ser mais difícil, e medicações aplicadas a pelagem geralmente induz a lambedura excessiva do animal que acaba removendo o produto, mas nos gatos que aceitam banho e que os proprietários estejam dispostos, esta prática pode ser benéfica.

Os corticóides também podem ser usados para aliviar a coceira. Entretanto estes fármacos, possuem efeitos colaterais potenciais e são reservados para animais os quais outra terapia não é possível  ou é ineficaz  ou para controlar a coceira grave por um curto período de tempo. Geralmente dá-se preferência pelo medicamento via oral, mas para alguns gatos atópicos, a via injetável pode ser mais tranquila, visto eles serem um pouco mais tolerantes aos efeitos dos corticóides e as injeções serem aplicadas com intervalos longos, geralmente cada 3 meses ou mais de intervalo. Para os animais que se adaptam com a corticoterapia, é necessário realizar exames de sangue periódicos (hemograma e bioquímicos) para avaliar a presença de efeitos indesejados, como por exemplo alterações no fígado. Já alguns cães podem não responder satisfatoriamente ao uso de corticoides e outras drogas imunossupressores podem ser prescritas.






Vacinas de dessensibilização podem ser formuladas  para o cão ou gato  com base nos resultados do teste cutâneo ou sorologia, mas está mais indicada nos casos onde é impossível evitar os alérgenos, os sinais estejam presentes por mais de 4-6 meses do ano e as drogas antipruriginosas sejam instatisfatórias. Essas vacinas geralmente são administradas por toda a vida do animal. Após uma série inicial de injeções, reforços periódicos  são necessários. De 60 a 80% dos animais melhoram com essas vacinas. Porém, a dessensibilização leva tempo e pode não ser observada por 3 a 6 meses ou mais. Se os resultados não forem observados em 9 a 12 meses, é necessário reavaliar o uso da vacina.

É contra-indicado a reprodução de animais atópicos, devido ao potencial de transmissão genética, e as fêmeas podem se beneficiar da castração, visto o período de cio se tratar de um estress fisiológico pro organismo, podendo intensificar crises de coceira, assim como a alteração hormonal deste período também pode contribuir pra piora do quadro.
As alergias constituem um problema para toda a vida e tendem a não se resolver. A maior possibilidade de sucesso se dá quando o proprietário está disposto a aguardar o tempo necessário para se chegar a um diagnóstico definitivo, testar quais drogas são eficazes para cada caso e se esforçar em manter uma rotina de tratamento e visitas médicas periódicas. Apenas por tentativa e erro pode ser formulada uma terapia ótima para um paciente atópico. 

Tempo e paciência são as chaves!


* Informativo adaptado por Maricy Alexandrino a partir do texto:  "Séries de Informação ao Cliente" –  Dermatite Atópica Canina, Sandra Merchant,  Tratado de Medicina Interna Veterinária, 5º ed. Vol. 2, Rio de Janeiro: Guanabara, 2004

©Este texto é um trabalho original do Autor e é protegido pela Lei de Direitos Autorais. Qualquer uso ou reprodução deste texto depende de prévia e expressa autorização do Autor



Referências Bibliográficas:

ETTINGER, S.J.; FEELDMAN, E.C.; Tratado de Medicina Interna Veterinária, 5º ed. Vol. 2, Rio de Janeiro: Guanabara, 2004.
SCOTT, D.W.; MULLER, W.H.; GRIFFIN, C.E.; Muller & Kirk, Dermatologia de Pequenos Animais, 5º ed. Rio de Janeiro: Interlivros, 1996
Fonte: clinipet.com

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